21 de fevereiro de 2007

POR OUTRO LADO...

talvez ainda haja esperança para os que vivem no mundo da fantasia e pensam que o país se endireitará apenas com o esforço dos outros. Que o seu esmagador talento os iliba de caminhar sobre a terra...

20 de fevereiro de 2007



Alberto J. Jardim faz o habitual número da chantagem. Não precisava dele. A atentar pelo cortejo carnavalesco do Funchal que não se poupou a invectivar os "cubanos" por os "terem roubado", já dava para perceber que a amestragem continua a funcionar. O homem agita o osso e os seguidores saltam. Enfim. Também se fala do "povo madeirense", que é uma coisa que me faz confusão, já que não ouço falar do "povo transmontano", nem do "povo ribatejano" e estamos todos debaixo da mesma bandeira.
Esta demissão do pequeno e alarve ditadorzeco deveria servir como uma oportunidade para o "povo madeirense" dar uma a volta que lhe falta no seu desenvolvimento: atingir a democracia. Ainda que viver em democracia signifique partilhar a luta e as dificuldades do resto do território nacional. Mas, a atentar no que tenho ouvido, não acredito que seja desta que a lucidez ali chegue.

16 de fevereiro de 2007

FLANNERY O'CONNOR

Levou tempo a chegar a Portugal, mas já cá está. UM BOM HOMEM É DIFÍCIL DE ENCONTRAR (Cavalo de Ferro), na tradução de Clara P. Correia. A ler com urgência.
O CORSÁRIO IMPLACÁVEL
O ciber-governador da Califórnia e o seu ajudante Jackie-Passepartout-Chan atacam sem piedade o tenebroso mundo dos dvds piratas, lol! AQUI

14 de fevereiro de 2007



Em O MAR POR CIMA, uma das personagens caminha pela rua enquanto se ouve uma música na rádio. Foi mais ou menos isto que escutou, enquanto o vento afunilava na direcção do abismo.

12 de fevereiro de 2007

SISMO


A Terra tremeu em Portugal hoje de novo.
Não bastava o resultado do referendo de ontem que veio abalar o fundamento da doutrina que diz bastar um padre, uma freguesia atrasada e um patrão de barriga cheia para que nada se altere...
SIM

Pelo menos três tentativas depois, desde o início da democracia em Portugal, o "Sim" à despenalização do aborto venceu. Separamo-nos assim da Polónia e da Irlanda, os nossos parceiros europeus na promoção do aborto clandestino.
Helàs para as forças mais hipócritas da sociedade portuguesa!
Mas não se iludam os que se alegraram ontem. Muitos vão ser os que vão boicotar o processo e a aplicação da lei, nesta primeira fase. Vamos saber de casos de médicos e outros técnicos de saúde que driblarão as doentes de maneira a que o prazo legal seja ultrapassado e elas fiquem sem recurso. Outros vão ter atitudes moralmente superiores ao receber quem decidiu que não podia levar aquela gravidez para a frente. E isso vai causar sofrimento. Mas sempre foi assim. Antes que as águas sosseguem é preciso que a lama se levante do mais fundo da condição humana.

8 de fevereiro de 2007

MOCIDADE, MOCIDADE

Nunca pensei ver o dia em que Salazar seria votado pelos portugueses como "uma figura notável".
E contudo era mais do que previsível. O Tempo tudo faz esquecer aos mais velhos. E os mais novos imaginam-se os seus inventores.
Fica para trás o país amordaçado, os escritores que eu conheço que foram presos e torturados, a fome e a ignorância que consumiram a geração dos meus avós e encheram a dos meus pais de marcas físicas e morais. Para trás fica a compreensão do porquê de não registarmos as queixas nas repartiões públicas, de aturarmos o comportamento arrogante de políticos e de acharmos que isto é mau para nós porque na verdade não pode ser bom para todos.
Enquanto escrevo isto, penso na dor que me causou levar reguadas na escola diante da figura do Craveiro Lopes. E no ar desorientado do professor primário quando estourou o 25 de Abril e percebeu que isto agora, se calhar tinha que lá ir com inteligência...

7 de fevereiro de 2007

A MISÉRIA QUANDO NASCE É QUASE PARA TODOS

Duas boas notícias: os bancos privados aumentaram os lucros em mais de 30%, no momento da maior crise económica, e também ficámos a saber que há pelo menos 9000 portugueses que têm mais de um milhão de euros na conta (em Portugal, claro. Faltam os outros que têm a maior parte em offshores...).
Fico contente de saber que apesar de todas as pessoas que eu conheço não terem dinheiro suficiente para chegar ao fim do mês, ainda há quem se governe.
Antes assim!

ps: por certo que esses mesmos bancos devem ter ficado felizes com a nova medida governamental que vem decretar o fim da mama da retenção dos cheques por vários dias. Aquela coisa do "tomem lá o cheque que recebi e, se fizerem favor, libertem-no para a semana", tem os dias contados.
DIZ QUE É UMA ESPÉCIE DE... NÃO

Ao menos o medo da vitória do Sim já fez os partidários do lado oposto inflectir a posição. Passaram da ideia de que uma mulher que aborta é uma valdevina que merece ir para à prisão depois de se ter esvaído em sangue na Emergência de um hospital, para uma valdevina que merece sofrer os desaires dos consultórios de vão-de-escada, mas a quem basta apenas humilhar com ficha na polícia.
Deve ser o surgimento do que se costuma chamar "sentimento cristão".

5 de fevereiro de 2007

PORQUE VOU VOTAR "SIM"

Porque sou obrigado. Porque esta deveria ser uma questão colocada apenas às mulheres em idade fértil e não aos homens. Quem carrega no seu interior durante nove meses e para o resto da vida no exterior um filho são apenas as mulheres. Mas já que tantos se empenham em continuar a manter as mulheres à rédea curta, debaixo do pezinho da lei, cabe-me a mim estar do outro lado.
E, sobretudo, porque a gravidez não prevista ACONTECE. Mesmo entre gente esclarecida e cautelosa. E quando tal sucede, é preciso decidir se temos coração e coragem para acolher mais um ser neste penoso vale onde vivemos. E, às vezes, a resposta é não.
(SÉRIE) COMO RECONHECER: o aeroporto de Lisboa?

a) O único europeu em que as pessoas serão chateadas se se lembrarem de declarar alguma prenda para a família.
b) O único europeu em que se fuma debaixo dos anúncios de Não Fumar, perante a impassibilidade dos seguranças.
(SÉRIE) COMO RECONHECER: um balcão da TAP em Paris?

O único que tem 4 pessoas diante dos balcões de bagagens mas apenas duas fazem check-in. As restantes distraem as primeiras com comentários e histórias privadas.
(SÉRIE) COMO RECONHECER: Portugal

Estamos uma semana no estrangeiro e quando voltamos só nós é que nos alterámos ligeiramente

26 de janeiro de 2007

BABEL
Consegui, finalmente, encontrar tempo para a ver mais uma narrativa fragmentada do cineasta Alejandro Gonzalez Iñárritu (o nome, impronunciável, é digno do título...). Um filme que reflecte bem alguns dos problemas de incomunicabilidade com que o mundo actual se debate. E as consequências violentas desse diálogo de surdos. Os Estados Unidos aparecem como a imagem de um império que se desmorona diante dos nossos olhos.
O trailer está aqui.
VIVER DE TRÁS PARA A FRENTE

Encontrei este texto na net. Além de ter alguma graça, faz sentido:

"I want to live my next life backwards:You start out dead and get that out of the way.Then you wake up in an old age home feeling better every day. Then you get kicked out for being too healthy.Enjoy your retirement and collect your pension.Then when you start work, you buy a mansion on your first day.You work 40 years until you're too young to work.You get ready for High School: drink alcohol, party, and you're generally promiscuous.Then you go to primary school, you become a kid, you play, and you have no responsibilities.Then you become a baby, and then... You spend your last 9 months floating peacefully in luxury, in spa-like conditions - central heating, room service on tap, and then...You finish off as an orgasm."

23 de janeiro de 2007


ESTÁ A CHEGAR O CORVO

Como de costume, por esta época ando às voltas (e o resto da equipa, igualmente) com a selecção de curtas do IndieLisboa. Já nem me dou ao trabalho de dizer que este ano ainda vai ser maior e mais variado do que nos anos anteriores. Quem quiser saber mais vá aqui.
E agora se me dão licença tenho ali uma pilha de filmes suecos à espera de ser visionada...

22 de janeiro de 2007

PROJECTO GUTENBERG

Já está disponível em português, O Projecto Gutenberg, a mais antiga biblioteca electrónica do Mundo, na Internet. Segundo me informou o Ricardo F. Diogo: "Os milhares de livros-e disponibilizados gratuitamente no PG são produzidos por voluntários de todo o Globo, sozinhos ou no sítio de revisão colectiva Distributed Proofreaders.A nova versão pretende aumentar as taxas de literacia e a produção de livros electrónicos gratuitos no Mundo de Expressão Portuguesa.Espera-se, dentro de uma década, ocupar a terceira posição no número de obras em línguas europeias. Um objectivo ousado, que depende da capacidade de mobilização de toda a Comunidade Lusófona. Qualquer pessoa pode ser um voluntário. Apenas precisa de um livro velho. E de amor pelas Letras em Língua Portuguesa. Mais pormenores nesta página."
Eu já visitei e fiquei cheio de vontade de descarregar alguns dos melhores textos produzidos ao longo dos séculos em língua portuguesa. Recomendo que façam o mesmo
CIMA DA LEI

Ao escutar o repugnante depoimento do chefe do sindicado dos juízes, defendendo a sentença de seis anos de prisão para o pai adoptivo que recusou entregar a filha ao desconhecido pai biológico (que por sinal, de acordo com as imagens televisivas, mora num belo tugúrio...), voltei a comprovar que esta classe se considera acima da vida real. Um casal que crie uma criança não pode ser considerado como família, apesar do consentimento da mãe biológica, se não tiver passado pelo calvário do processo de adopção. Não interessa se provaram amar e respeitar este novo filho. O que conta é o acto de parir e a bênção de homens e mulheres que vivem de acordo com o que está escrito em livros. Por isso, as cadeias estão cheias com gente que de toda a evidência deveriam ter tido outro destino. E também por isso, continuarão a aparecer bebés no lixo, crianças torturadas por mães jovens e impacientes e outras abusadas por famílias perfeitamente legitimas.
Não sei se o sentimento que toda esta ?legitimidade? me provoca poderá ser classificado de ?anarca?. Mas que me mete nojo partilhar o mundo com esta gente, mete...

17 de janeiro de 2007


COISAS DE NORTE E SUL

Já o disse, mas repito: gosto do Norte do nosso país. Do resto de autenticidade que perdura. Não sei se é da pedra ou do frio ou do cheiro intenso do iodo nas praias com nevoeiro, mas ainda resta ali qualquer coisa.
Para um homem do sul, esta ideia não está mal. Na verdade, o que eu gosto é do melhor deste país: do mar dos Açores e da vegetação nas praias do Alentejo; da comida de Trás-os-montes e do Minho, do pão de Mafra e da Vidigueira. E, mais ao longe, do Portugal imaginário e amado que vive no coração dos nosso emigrantes.
CAVACO COM O GANGES À CINTURA

O nosso Cavaquito e a sua Maria lá foram à Índia. Carregadinhos de patrões, os proprietários (ex?) da vivenda Mariani para lá andam cheios de confiança em dar lições financeiras ( e de poesia, no caso da nossa primeira dama) aos indianos. Pena que estes estejam a crescer a uma taxa de 7,5% ao ano, enquanto nós marcamos passo.
E a cultura também foi bem representada, na figura de uma fadista que cantm êxitos da Tonicha mas atirando a cabecita bem penteada para trás. Estou a dizer isto, mas acho bem que o casal a leve, em sinal de agradecimento. Afinal, enquanto mandatária para a juventude, foi uma das pessoas que os meteram em Belém.

ALGUÉM QUE ADOPTE A JUSTIÇA...

Provavelmente terá sido por uma questão formal, o desfecho do caso de Torres Novas. A juíza deve ter sido forçada pela forma como o caso se apresentava a proferir aquela sentença. Passa assim a ser necessário retirar uma criança aos seus pais afectivos, para a entregar a um pai biológico que nunca lhe pôs a vista em cima. Isso já aconteceu antes. O valor do "sangue" a sobrepor-se ao do afecto. A condenação a seis anos de prisão por "sequestro" é ridícula. Digna dos actos mais emblemáticos da nossa magistratura...
Enfim, cada país tem a justiça que merece.
UM PROF PARA TUDO

Por já ter visto a aplicação noutros países tenho algumas dúvidas sobre esta ideia semi-peregrina de prolongar o professor único na sala de aula até ao 6º ano. E o que se lhes pedirá em mestrados para ensinar as criancinhas raia as provas de entrada nos Comandos... Vamos lá a ver se o programa dos miúdos que acompanhará a "mudança radical" também se preocupará com coisas desaparecidas como a responsabilização pelos actos praticados, o respeito pelas diferenças e a tomada de consciência de que toda a recompensa é precedida de esforça honesto...

16 de janeiro de 2007

GRANDES QUALQUER COISA

Depois de ter visto um burro a tocar violino (citando um antigo amigo) já nada parecia poder supreender-me. Mas afinal, vejo a ministra da (cof, cof) educação de Santana Lopes nomeada como uma das "Grandes Portuguesas", à frente da Paula Rego e da Vieira da Silva... Como nunca vi a senhora ao vivo, só me resta pensar que ela terá mais de 1, 90m. Tirando isso, não estou a ver a possibilidade de grandeza. Oh, valha-me o divino!
DESAPARECIMENTO

De Ray-Güde Mertin, agente literária de quase todos nós, portugueses, brasileiros, angolanos, etc.
Profunda conhecedora do melhor que se escrevia em língua portuguesa a Ray defendeu e acompanhou internacionalmente diversas gerações de autores.
Ficamos todos mais pobres.

11 de janeiro de 2007

PESSOAL E TRANSMISSÍVEL

O Carlos Vaz Marques é um bom profissional da rádio.
Teve a simpatia de ler e de me perguntar coisas sobre o RIO DA GLÓRIA.
Para os interessados, aqui fica o link.

10 de janeiro de 2007

ABRE O GUARDA-CHUVA!

Consta que um prédio na martirizada Quarteira se inclina para o suicídio. Ganhou o nome de "Torre de Pisa de Quarteira", por ter um afastamento (ou aproximação ao solo) de 30cm.
Interrogado sobre as medidas a tomar, o presidente da cãmara explica que os proprietários vão ser intimados a fazer obras de recuperação e como o prédio é recente estes, por sua vez, devem pedir responsabilidades ao construtores. Quanto aos fiscais que deveriam ter avaliado a consistência do solo e se os materiais de construção propostos tinham sido respeitados, nem uma palavra. A incompetência (e eventual corrupção) é para esquecer. Quem vier atrás que apague a luz.

9 de janeiro de 2007

O NÃO-MOVIMENTO

Basta olhar para os protagonistas dos diversos movimentos, para as frases escritas a rosa em outdoors municipais para perceber que a futura liberdade de escolha não é nem um direito adquirido, nem está ao alcance de todos.
Por outro lado é bom ver como os homens, sobretudo banqueiros (absolutamente sem ligações aos grupos religiosos ou apreço pelo cilício) se interessam pelas questões das mulheres... Gente com tanta vontade de proteger o sexo fraco... Mais generosidade deste género só na Arábia Saudita.
JOÃO PINTO 2
Se ainda houvesse alguma esperança na existência de um pingo de vergonha no mundo do futebol, o resultado da telenovela abaixo mencionada é gritantemente elucidativo. O senhor aceitou que as suas declarações anteriores eram falsas DEPOIS de saber que o a sua dívida (mais de 600 mil euros) estava fora do alcance dos contribuintes.
Tudo relativemente dentro da "legalidade". Claro que se um de nós, cidadãos de baixo e médio rendimento, dever 50 cts às Finanças seremos perseguidos com cartas registadas, processos e penhoras.
A não ser que tenhamos advogados espertalhões, claro.

4 de janeiro de 2007

REFORMAS

No mesmo dia em que o jogador João Pinto lá foi meter os pés pelas mãos e dizer que se calhar era capaz de ter recebido alguma coisinha (tipo 400 mil contos) sem dizer nada ao fisco, que é a gente por interposta pessoa, os jogadores ameaçam com greve se não forem para a reforma aos 30 anos. O desgaste rápido e tal. Este governo não tem mesmo sentimentos para com os nossos deuses intocáveis. E a argumentação de que existem centenas de profissões que também poderiam pretender o mesmo tratamento não colhe. Primeiro, porque se trata de FUTEBOL (vénia prostrada), segundo, porque não se pode tratar toda a gente bem... Deviam ficar quietinhos e deixar futebolistas e deputados ir descansar quando se vissem cansaditos.
Falta de sensibilidade, pá!

2 de janeiro de 2007

E HÁ DO OUTRO LADO DO ANO...

Na verdade, o que eu quero dizer mesmo é que se dermos o nosso melhor (o melhor mesmo, não a nota mais forte ou mais agressiva) se a meia-dúzia de não-alienados (ou que lutamos por isso) nos unirmos, poderemos melhorar as coisas. Isto é, escrevermos coisas com interesse, pintarmos bons quadros, contribuir para que a justiça nos tribunais onde trabalhamos funcione de forma mais justa, recebermos nas repartições públicas o público com mais humanidade e vontade de ajudar, nos hospitais e clínicas tratarmos os que sofrem como pessoas... que sofrem, então, 2007 será melhor do que 2006. Mesmo que a maior parte do país e do mundo tussa com desagrado e nos agite o punho na cara :)
Bom ano, amigos!

31 de dezembro de 2006


2007

Um ano difícil chega ao fim. Horribilis a muitos títulos. A crise financeira veio para ficar, apesar da loucura natalícia nas lojas. O pior dos portugueses veio ao de cima e o "salve-se quem puder" está mais forte do que nunca.
Foi o ano do aparecimento descarado da "crítica light", a movida pelo desprezo total pelo mérito dos autores e pelo despeito pessoal. Gente do mais medíocre publicou livros que afirmam não ter o país, à excepção dela própria (dona de uma ficção inexplicavelmente recusada por todas as editoras...), escritores a sério. Os que cá andamos somos todos uma merda e a salvação virá das suas construções de lama. Para grande surpresa, estas afirmações foram recebidas e amplificadas com aplauso ou com uma cumplicidade reveladora.
Sobre este assunto, ficam registados dois dos votos de Miguel Sousa Tavares no EXPRESSO para o próximo ano: "Que, em todos os sectores da vida pública, o talento, o mérito e o trabalho triunfassem sobre a inveja, a incompetência e a mediocridade". E o segundo: "Que o país se concentrasse na defesa daquilo que é essencial: a língua, a cultura, a educação, o território, o património e a paisagem". Não creio que estes desejos se concretizem, pois como afirma Clara Ferreira Alves na mesma página "Um grande ano de 2007 seria aquele em que deixássemos de ter o desejo, a necessidade, a obrigação, o nojo de partir". Porque "isto" não vai mudar. E "isto" é Portugal.
Por isso, para os mais sonhadores desejo que se mantenham no ar, no território das nuvens, lá, onde as vozes dos predadores não chegam. Para os que preferem andar com os pés na terra, votos de muita coragem, porque o lixo trazido pela maré baixa vai continuar a colar-se à cara das pessoas honestas.


"Narcisus", Caravaggio

30 de dezembro de 2006

PENA BUSH

O presidente dos states já veio afirmar que o enforcamento de Saddam "vai ser bom para a paz mundial". Ao ouvir isto e ver as imagens do suplício percebemos que na Europa já não estamos no lugar histórico-medievo de onde o ditador provinha, nem tão pouco no mundo de faroeste dos USA que tantos tomam como modelo de desenvolvimento.
Repugnante.

29 de dezembro de 2006

PALAVRAS PARA QUÊ? É UM ARTISTA PORTUGUÊS E USA... O QUE PODE

"Quatro sociedades de desenvolvimento criadas pelo Governo, constituídas com capital público, contraíram este mês junto da banca um empréstimo no valor global de 500 milhões de euros. A operação não necessita de autorização do Governo, mas acaba por agravar indirectamente a dívida da Madeira. Aliás, esta não é a primeira vez que o governo regional se socorre desta forma de desorçamentação ou engenharia financeira. As sociedades de desenvolvimento foram criadas para contornar o endividamento zero imposto pela antiga ministra Manuela Ferreira Leite...."
in DN(o de Lisboa, óbvio)

28 de dezembro de 2006

ALL IN THE FAMILY

Numa altura em que os tribunais portugueses continuam a fazer questão em "ser cautelosos" no afastamento de pais fisicamente abusadores, presumo que "para ver se se emendam...", em que milhares de pessoas aguardam a sua vez na longa fila da adopção, uma outra criança foi morta (presumivelmente, claro) vítima de maus-tratos. O cretino preconceito do predomínio do sangue sobre o amor causa e continuará a causar vítimas.
Até ao dia em que os legisladores metam os preconceitos bíblicos e o moralismo abraanico na gaveta e comecem a perceber que há pais e pais.
E que para sermos dignos desse nome temos de nos esforçar todos os dias.Fazê-los é fácil, amá-los e protegê-los é que custa. E, já agora, que anda por aí muita gente que tem mais condições de coração do que muitos "naturais".

20 de dezembro de 2006

DICIONÁRIO DE NOMES FAMILIARES

"Família" é tudo. O que vem de trás e ficará para a frente. A certeza de não estarmos com as raízes a apodrecer em água estéril. Que quando todos fugirem ao nosso toque leproso, haverá um irmão, ou uma filha, ou, se tivermos sorte, ainda uma mãe ou um pai que nos lavarão as chagas ignorando o cheiro dos nossos corpos e impedindo que reabramos as feridas com as nossas próprias mãos. São ainda aqueles que puxámos para o interior da caravana sem abrandar o passo.

Se existisse um dicionário de relações familiares teria entradas assim:

FILHOS- O que sai de dentro às mães e dos olhos aos pais. Camada que recobre o coração de forma permanente e indelével. Prolongamento de nós sendo outro. Razão mais que suficiente para renunciarmos à solidão humana.

IRMÃOS- Castigo inicial que se transforma em apoio lateral com os anos. Aquele ou aquela que estará do outro lado da linha telefónica - ou do que vier a ser inventado - a pedir ou a dar ajuda. Pelo menos até que a sua nova condição familiar o/a não consuma. Quem nos dá a certeza de que nem sempre fomos assim.

PAIS- Aqueles que estavam quando ainda só eles estavam. Os que recuaram quando outros chegaram. Os que avançaram quando outros recuaram. Os que se esqueceram da idade e das dores à vista das nossas dores e sem olhar à nossa idade. Os que vão estar aqui até que, seguros pela nossa mão, deixem de o estar.

AMANTE/AMIGO/AMIGA/HOMEM/MULHER- Todo o que nos ama para lá das nossas perfeições. O elo mais frágil da cadeia. Aquele em que nos apoiamos com mais força por ser do mesmo tamanho que nós e estar treinado no nosso passo de saltador de valas inundadas. O que pode mudar e quase sempre muda. O indispensável.

18 de dezembro de 2006

10
foi o número (aproximado) de takes que Lili Caneças exigiu ao operador da Tvi para que a mostrassem a entregar 4 mantas aos sem-abrigo junto à Cidade Universitária.
Queria provavelmente mostrar o seu lado bom...

AINDA O RIO

Para quem não acredita em tudo o que lê, aqui fica a entrevista à SIC.
O ANO DA BESTA

Alberto João Jardim estrebucha que este é o "ano da besta". Esta referência ao seu anus horrível assentará naturalmente no anúncio do fim do seu reinado com o dinheiro dos outros. Mas há motivos para lhe dar razão sobre 2006. Um deles é que até o João César das Neves já escreve contos.
Aqui, a prova do horror.
RECOMENDAÇÃO INTELECTUAL
Se acreditam na possibilidade de vir a gostar de lesmas cantoras que vivem nos esgotos, então avancem sem medo para o filme Flushed Away (Por Água Abaixo).
Um divertimento pegado. E não é só por ter baratas que lêem a Metamorfose do Kafka...
Lol!

16 de dezembro de 2006

PERÚS

Já se sabe quem serão os perús perdoados por George Bush neste Natal? Os felizardos que irão viver para o calor da Flórida?
Devem ser de origem iraquiana, com certeza...



Ah... espera, não é no Natal... É no Thanks Giving... Bom, alguém deverá ser perdoado. Provavelmente um dos milhares de negros condenados à morte que aguardam a sentença.
FRIO

Tenho os dedos gelados de escrever sobre o meu país

14 de dezembro de 2006


THE QUEEN

Um belo filme de Stephen Frears . Entra-se de pé atrás, preparado para a xaropada real e sai-se convencido.
Um dos filmes mais seguros deste realizador.

13 de dezembro de 2006

A LUZ ARTIFICIAL DAS LÂMPADAS

Este natal vai ser diferente.

Vamos dar pulseiras de ouro um ao outro e fantasiar que ainda nos amamos. Vamos cobrir a mesa com bolo-rei, broas de mel e rabanadas, enquanto sorrimos às crianças estonteadas que somos nós correndo à volta da mesma mesa. Ligar alto a televisão para não ouvirmos a chuva que cai na casa. No interior da nossa própria casa.

Este natal vamos descongelar um peru e enfiar-lhe no peito aberto pão, castanhas e as suas próprias vísceras (banhadas em vinho do porto, pois claro, para que não saibam a entranhas e o corpo de onde vieram as não rejeite, por impuras). E quando a gordura arder sobre a pele sem penas vamo-nos concentrar no cheiro para não pensarmos que na rua ao lado dorme, sobre um cartão, um outro corpo imerso em álcool. Este natal vamos de novo ser caridosos e beijar o pé do menino enquanto nos sentimos a melhor pessoa à face da Terra. Os lábios bem apertados para que não nos tomem por fracos capazes de entender que cada um tem os seus próprios pés e que só houve Um capaz de beijar sem escolher.

Este natal vamos enrolar as pérolas à volta do pescoço e simular que exibimos o coração. Ou, para lá do condomínio, carregar o carro do hiper com coisas que não poderemos pagar mas cuja dívida será como um colar de pérolas em volta do pescoço.

Este natal vamos ser humanos voltar a fingir que nos interessa mais alguma coisa do que travar o avanço inexorável da nossa morte.

12 de dezembro de 2006


A SAIA DA CAROLINA TEM UM DRAGÃO PINTADO

Que chatice, agora que o Ministério Público já estava a arranjar as coisas para deixar o processo dos apitos e dos árbitros e dos construtores civis e dos autarcas, criar pó e morrer, vem a mulher abandonada pôr a boca no trombone.
Até o Procurador Geral da República se "mostra preocupado".
Se calhar não vai poder ser tudo abafado como previsto
Chatice! Estas gajas não têm compreensão para assuntos sérios. Futebol e corrupção e assim.
E o pior é que de momento não se pode simplesmente mandar dar-lhe uma sova...
Vão ter que pensar noutra estratégia. Provavelmente formal, ou não vivêssemos numa justiça de papel.

11 de dezembro de 2006

NUNCA É DE MAIS

agradecer aos professores deste país que fazem o favor de mostrar os meus textos aos alunos, pedir-lhes que comentem ou façam trabalhos em seu redor. Se isso ajudar de alguma forma a criar ou desenvolver o amor pela Literatura e pelo Conhecimento, então muito obrigado.
Nenhum de nós está a mais no combate contra a ignorância galopante.
DE CESARINY E DAS TREVAS REINANTES

Recebi e-mail do meu amigo Perfecto Quadrado, uma das autoridades mundiais do estudo da literatura portuguesa, habitante das Canárias que é terra de mais sol do que cá. E conhecedor do trabalho de Cesariny como poucos.

"
Morreu-nos o Mário (Cesariny). As trevas, como dizia Pascoaes, são cada
vez mais trevas, o que causa grande regozijo nos cadáveres adiados que
procriam na caverna."

Respondi-lhe que era tudo verdade. Mas que as trevas sempre precederam a luz. A ignomínia está espalhada por cima da ignorância, mas nunca nos atingirá a todos.
Seria contrário à natureza humana.

9 de dezembro de 2006

DIA BOM

Numa terra em que toda a gente se queixa que não a deixam fazer nada, foi bom carregar estantes de ferro encontradas no lixo e que agora servirão de teia para projectores. Recortar cartões que serão utilizados como palas para as referidas luzes. Empurrar sofás para cá e para lá enquanto discuto com a minha colega co-realizadora os melhores planos que iremos filmar amanhã com a mini-Dv que nos emprestaram. E amanhã, ao fim do dia, estaremos com o resto dos voluntários cansados e sem dinheiro para cattering ou seja lá para o que for. Mas estaremos um passo à frente dos que usam o seu tempo para se lamentar ou tentar destruir os que imaginam como inimigos.
E isso, companheiros, ajuda a dormir em paz :)

7 de dezembro de 2006

TOP LITERÁRIO

Se houvesse dúvidas sobre o iliteracia dos portugueses bastaria olhar para o top da Fnac que tem entre os primeiros lugares (desde há semanas) as últimos dois milhões de páginas do José Rodrigues dos Santos, o livro de queixas do Santana Lopes e um romance sobre a vida de um cão.


ps: alguém me pode informar se para fugir de Portugal ainda se tem de ir "a salto" ou se já se pode ir pela fronteira?
O PEOPLE DAS ARTES

Andava há uns tempos deprimido com a minha aparência. Felizmente que uma "figura pública" resolveu meter mãos à obra e mudar o que temos de feio em... feio.
Um milagre de Natal. Acho
http://luisacastel-branco.blogs.sapo.pt/

6 de dezembro de 2006

OU COMEM TODOS OU NÃO HÁ MORAL

As finanças andam a decretar buscas a empresas de construção por suspeita de evasão fiscal.
Nâo! A sério?
Se encontrarem alguma coisa ficarei muito espantado. Construtores corruptos?
Daqui a pouco vão começar a dizer que há autarcas igualmente corruptos que lhes facilitam as negociatas...
Onde isto haveria de chegar...

30 de novembro de 2006

FUJA-SE DA LEITURA

Por andar distraído só agora reparei que o único programa sobre livros da televisão pública foi banido da antena. Sim, existe um outro que também fala e recomenda livros, sem que esse seja o seu objecto.
Sinto flexInseguro num país em que NUNCA um escritor é convidado para telejornais nos canais generalistas (o cabo, felizmente, vai abrindo excepções), e o lançamento de um livro de ficção NUNCA é notícia. Quanto muito será o fait-divers à volta do lançamento.
Não posso crer que não exista em Portugal nenhum Bernard Pivot. Alguém que reúna o dom da palavra, algum conhecimento literário e uma forte assessoria por detrás.
E já que só ouço falar nos valores (inflaccionados) necessários para se fazer seja o que for, pergunto quanto custam uma mesa, 4 cadeiras, um pano de croma atrás e o uso de técnicos e equipamento que de qualquer maneira já será pago?
Assim nunca mais...
EXCERTOS RIO DA GLORIA 1




Pedi ao actor Carlos Gomes que lesse um excerto do romance que mete livros em avançado estado de degradação, freiras e tentativas amadoras de acabar com a fome dos bichos da prata...

29 de novembro de 2006

SOME E SEGUE
Todos os dias se aprende. Mesmo a contragosto. O quotidiano como um banco da escola onde todos os dias tem de se estudar matemática e física, mesmo se gostaríamos de nos ficar pela leitura e interpretação de texto.
E nunca se pode faltar. Nem ficar doente.
E desconfio que as férias também se acabaram de vez...

27 de novembro de 2006

O 31 DE ALCÂNTARA

Nesta edilção do jornal Expresso, Luisa Schimdt alerta para a situação da construção do empreendimento vendido como Alcântara XXI. Mais uma ponta do icebergue da pavorosa governação lisboeta de Clown-Lopes e Carmona Rodrigues. A coisa não só tem atrapalhado o trânsito como estará edificada sobre um leito de cheia, uma zona de aterro inundável, um solo de aluvião, um corredor eólico, um braço de mar e uma falha sísmica. Já se pode antever que mais dias menos dias, os yupees que ali gastarem os muitos milhares de contos de cada apartamento irão por água abaixo, terra abaixo ou céu acima. Não que se perca muito com o assunto, provavelmente. Mas ainda assim vai ser uma trabalheira para os bombeiros e o trânsito ficará péssimo por esses dias.

ps: a sorte desta jornalista é não morar num país da américa latina. E o azar não morar num sítio instruido. No primeiro caso já lhe teria acontecido alguma desgraça. No segundo, os seus avisos já teriam sido ouvidos e alguma coisa feita para minorar os danos. Mas por aqui, neste país de pantomineiros o vento leva-lhe as palavras. Vai-se a ver, Portugal está instalado num corredor eólico...

26 de novembro de 2006

CESARINY...

não foi apenas o poeta surrealista, o pintor. Foi também o homem descarado que insistia em esfregar a sua ânsia de se mostrar vivo nas nossas provincianas caras.
Descansem as almas pudicas que já podem mandar inaugurar uma rua com o nome dele.


"Faz-me o favor...

Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.

É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és nao vem à flor
Das caras e dos dias.
Tu és melhor -- muito melhor!--
Do que tu. Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê. "

M.C. V.

24 de novembro de 2006

ARTISTAS DESPROVIDOS

Como não há meio de verem qualquer medida que prove que existem, quanto mais que têm direitos, as principais associações e sindicatos dos profissionais do cinema, doteatro, da música, da dança, do circo e de outras artes do espectáculo, unem-se para reivindicara criação de um regime laboral e de segurança social que se adeque àsespecificidades do sector e preencha o vazio legal existente.A Plataforma das Organizações Profissionais das Artes do Espectáculo e Audiovisual convoca, assim, todos os interessados a estarem presentes no próximo DIA 27 de NOVEMBRO, SEGUNDA-FEIRA, às 18h30 noTeatro da Comuna (Praça de Espanha, em Lisboa) para o lançamento de uma petição unitária que procure chamar a atenção para os problemas do sector.
A BOFETADA
Parece que uma das sociaites que nos andam a insultar há anos com o seu desprezo levou um estalo dado por um arrumador.
Acho que era urgente que se descobrisse onde está esse malvado. E se a coisa se confirmar irmos lá, severamente, dar-lhe uma moedinha. Dez milhões delas, para ser mais exacto.
Dizer NÃO à violência, em resumo.

23 de novembro de 2006

O PAPEL DO ESTADO NA CULTURA

Isabel Pires de Lima, a ainda ministra da cultura em Portugal, vai estar hoje à noite na Casa Fernando Pessoa a perorar sobre o assunto em epígrafe.
Provavelmente, poderia resumir o seu discurso a "Comer e Calar". Não há grande diferença entre a actual equipa do ministério e a presidência de Américo Tomás no antigo regime. Salazar mandava e o homem vinha cortar fitas, dar a cara e apoiar a desgraça.
Pode ser que alguém pergunta à senhora se ela tem consciência que o reprovável na actuação do seu gabinete não é ter reduções no orçamento mas sim não dar aos agentes da cultura qualquer ideia que possa reequilibrar o processo. Limita-se a acenar que sim a Sócrates (que remédio), a gerir dossiers que vinham do tempo da inenarrável Teresa-Cansada-da-Guerra-Caeiro e a meter os pés pelas mãos. O desalento causado entre aqueles que lutam todos os dias para se manter vivos e afastar o país das trevas é cada vez maior.
Creio sinceramente que deste lado do Atlântico também sofremos de desilusão lulista. E, para fazer rima, sem fim à vista.

22 de novembro de 2006

GATOS

Os gatos fedorentos romperam um terreno que resistiu a todos os governos. Com o apoio da direcção de programas da RTP (por uma vez, a mostrar coragem e ousadia). Ao fazerem (e deixarem passar) o maravilhosamente achincalhante sketch do Santana Lopes, fizeram história. Pela primeira vez na televisão nacional brincou-se descaradamente com um político. Que é o mesmo que dizer que nos rimos de nós mesmos.
Bravo.
ps: trabalhar o guião nas partes que intercalam os sketches, em vez do improviso desajeitado, ainda reforçaria mais o programa.
CULTURA 1

Acabou-se a festa da música. As enchentes para ouvir os autores clássicos e os melhores intérpretes. Gente a correr pelos corredores para escutar um quinteto de cordas... Vem aí um sucedâneo. Mais barato. Se será igualmente eficaz estaremos cá para ver.
O que dispensaríamos estar a ver era a actual ministra da cultura. Só aparece para defender os cortes orçamentais que o primeiro-ministro determina.
Afinal, ela revelou-se uma boa escolha. É... como hei-de dizer... "entalada" todos os dias e dá a cara para dizer que até gosta. Esquece-se que se espera também de um ministro uma palavra de alento para os que já não tinham quase nada e vão ficar ainda com menos. Ou que não pareça tão satisfeita por ser comida por parva.
CULTURA 2

Hoje disseram-me uma coisa extraordinária. "Quem tem interesse em divulgar os livros são os escritores". Aparentemente não interessam a mais ninguem neste mundo. Aos media, de certeza, que muito pouco. Fazem o jeito, são simpáticos, mas está enraizada a ideia que a literatura não muda o mundo. Este desprezo pela palavra escrita é o resultado de uma sucessão de governos ignaros e economicistas saídos do pós-trevas salazarentas. Só gostaria de sussurrar aos ouvidos dos jornalistas e dos donos de rádios, televisões e jornais: "Bíblia", "Mein Kampft", "O Capital"...
A literatura é tudo. Porque "é nela que se reflecte o céu"

17 de novembro de 2006

O MESMO PAÍS 2

Não me lembro de ter visto na televisão pública o poeta Gastão Cruz que lançou um livro há pouco ou o José Agostinho Baptista, outro grande poeta que também teve um livro recente. E os dois escrevem com raridade.
Contudo, ontem, vi em prime time, um imbecil que já nos desgovernou a todos, a propósito do lançamento de um rosário de queixas qualquer...

Também não dei pelo facto de Bastardia da Hélia Correia ter recebido um prémio literário...
Mas vi noutro prime time um pateta de orelhas grandes a contar como é que se pode ganhar um ordenado chorudo num cargo público enquanto escreve calhamaços jornalights...
Interessante, as escolhas neste país... Que é o nosso.
O MESMO PAÍS

"
Mais de 30 em cada cem alentejanos vivem na pobreza, isto é, 180 mil pessoas, numa população de 535 mil habitantes", especificou António Murteira, tendo como referência os residentes na região com rendimento mensal até 300 euros, o que perfaz dez euros diários."
in Público

"O Governo Regional da Madeira vai gastar 6,6 milhões de euros nas festas de Natal e fim de ano"

ibidem

14 de novembro de 2006

LANÇAMENTO, LISBOA

Para os mais corajosos, sábado, na Fnac do Colombo, às 17 h.
Não há beberete, mas também não terão fotógrafos da Caras a tapar a vista. Parece-me razoável, não? ;)
SARAMAGO NO JL

Boa, a entrevista do José Carlos Vasc. ao Saramago, na última edição do JL. Velhos amigos permitem-se a uma franqueza que reverte em benefício do leitor.
Entre muitas frases que nos permitem conhecer a matéria com que moldou as suas narrativas, temos também acesso à origem da melancolia. E, para os mais distraídos, o elucidar daquilo que muitos tomam (também me aconteceu, em tempos, perceber assim) por arrogância e vaidade. É antes o contrário.
E Lanzarote, um lanzarote qualquer, é para muitos nós mais do que um acaso ou possibilidade. Quase um presságio que acabará por tocar outros. Mesmo sem nobeis.

9 de novembro de 2006


AUTO DA FÉ

Como português interessado em livros não quero ficar de fora da nova moda literária. Nem pensar! Lançada recentemente, a moda do escrutinar livros de sucesso à procura de falhas ou repetições está em alta. Gente que não seria capaz de descrever literariamente um burro, se tivesse um espelho, passa agora os dias de lupa em punho à procura do erro. Esta moda, da crítica light, nascida do anonimato dos blogues é na verdade a manifestação simples de uma característica nacional: a pseudo-delação pelos medíocres. Quem estudou a história da perseguição aos judeus em Portugal sabe o que aconteceu a milhares de pessoas, cercadas de gente desta. Acusando disto ou daquilo, apossavam-se depois estes abutres dos despojos do supliciado. Aqui, nem isso. Quanto muito o prazer da lama.
Agora é com repetições e plágios.
Se ser português é ser iníquo, também não quero ficar de fora. Por isso, aproveito já para denunciar um caso complicado em que VÁRIAS pessoas se plagiaram. Os nomes dos miseráveis são (os que consegui apurar): São Mateus, São Joã0 e São Marcos. A história é IGUALZINHA: um tipo que nasce num estábulo e que morre na cruz. Até o nome é o mesmo! Por favor, se alguém puder escrever artigos eruditos ou promover conferências sobre o tema, seria da maior utilidade.
MADEIRA, VIDEO E LIVROS

Vou estar a partir de amanhã e até domingo na Madeira, para ajudar a coordenar a Maratona de Vídeo Magnavoce. Espero que muitos aspirantes a cineastas se inscrevam e, de câmara digital na mão se divirtam a receber alguma formação na área do cinema e a criar os seus próprios filmes. Inscrições em www.magnavoce.pt.
E, aproveitando a generosidade deste convite, aproveito para apresentar (com a ajuda de outros amigos) o RIO DA GLÓRIA, no Magnólia. Assim, os madeirenses estão todos convidados para ir no sábado (16h) até este espaço dar dois dedos de conversa e tomar contacto com o livro.

6 de novembro de 2006

SIMONE, DE VERDE





Quem se lembra de ter visto alguma vez imagens desta Simone jovem e a cores?
OLHO POR OLHO



A Humanidade está longe de ter atingido alguma coisa próxima da harmonia. Mata-se por castigo. Mata-se por não se ver outro caminho.
Sadamm está igualmente longe da santidade. Com virgens, ou não, à espera dele.

2 de novembro de 2006

LANÇAMENTO

Ok, ok. Vou-me já calar com o assunto. Antes que isto faça lembrar o blogue dos saudosos Gatos Fedorentos que a partir de certa altura já só nos davam as datas dos espectáculos ao vivo. O que acontece é que um blogue é um sítio de partilha, logo os escritores falam inevitavelmente de livros. E frequentemente dos seus livros. Não por publicidade, como não faltará quem diga. Mas porque são obsessões e escrever ajuda a dar-lhes forma.
Assim(em ficheiro ranhoso de imagem) fica a capa.

A partir de dia 7 nas livrarias do país.
E como tem sido no Prazer_Inculto que eu tenho falado mais sobre este projecto, decidi que será aqui o lançamento oficial.
Assim, no dia 8 ou 9, vou colocar aqui videos de vários actores a lerem excertos da obra e o que mais me lembrar. Fazemos assim uma festa. Sem champanhe nem caviar, hélas! que a internet ainda não chegou a tanto. :)

1 de novembro de 2006

JUST DO IT

Vou dizer uma coisa óbvia (mais uma, diriam os meus de-tractores-puf-puf,lol) mas tudo surge do trabalho. Sou lapalissiano, porque me parece sempre isto uma coisa espantosa. O meu lado mais preguiçoso gosta de sonhar com a possibilidade de conseguir algo de extraordinário sem esforço. Contudo, se fiz até hoje alguma coisa que merecesse alguma atenção, saiu-me de certeza do corpo, do pêlo, do trabalhinho aturado. E este princípio aplica-se a toda a gente que conheço. Não sei de grande escultura que não seja fruto de dias e dias de trabalho. Ou de pintura notável que não tenha custado ao seu criador anos de estudo e prática. Ou de colheita fértil de trigo que não tenha derivado de uma sementeira exaustiva, do arrancar das ervas e do esforço das máquinas e dos homens que as conduziam.,,,
Contudo, continuo a imaginar essa possibilidade, a jogar (ocasionalmente) no euromilhões e a acreditar que um dia vou poder estar perto da Grande Barreira de Coral sem ter gramado mais de 20 horas de voo. Ah, e já agora, sem ter suado para arranjar dinheiro para o bilhete...
Bom, vou trabalhar...

30 de outubro de 2006

DO OUTRO LADO DO ESPELHO


No princípio era Alice
e no fim era Alice e

no meio era Alice.

Alice lábil, bonitinha, rápida
como uma parvoíce

de Alice


Alexandre O'Neill


29 de outubro de 2006

FARMÁCIA DE SERVIÇO

A p... da gripe voltou a atacar-me. Trouxe a tosse com ela, a ver se me dobrava, e ainda tocou a trombeta do nariz entupido. Debilitado e farto de enfiar mel com aguardente goela abaixo, lá fui à farmácia. Ia pelos Ben-uron (1 euro e não sei quê).

Acontece que o merceeiro de serviço achou pouco.
"Oh... isso não é o mais indicado. Baixa-lhe a febre e tal". E eu estúpido: "Então o que é que acha que...?"
E já o "Cêgripe" (4 euros e tal) em cima da mesa. "E queria tb o medicamento para desentupir, n era...?", a nova maravilha fez a sua aparição. Uma coisa da Vick que faz correr o ranho cara abaixo como se fôssemos Julietas tristes. "Ah... e o xaropezinho para a tosse... não é?"
Mais duas larachas ensaiadas e lá estou à porta, saquinho branco cheio de porcarias na mão e um farmacêutico satisfeito do outro lado. Venha o próximo.
Percebe-se melhor o Sócrates nessas alturas.

ps: espero que a coisa das férias de Natal dos professores não passe de mais um boato da oposição. Ou vou ter de me juntar a eles na próxima manif. Só quem não deu aulas no Básico ou no Secundário é que não percebe a necessidade desse descanso. Aliás, cada vez mais reduzido, dada a invenção todos os anos acrescida de reuniões para discutir o sexo dos anjos, o formulário A para a estatística X ou resolver o estranho caso da MALANDRICE QUE PRENUNCIA O CHUMBO...

26 de outubro de 2006

O OUTRO LADO DA BARRICADA

De vez em quando é pedagógico ser júri do ICAM. Aceitar o desafio com a honesta esperança de "finalmente poder fazer justiça".
Num certo sentido, isso acontece. Se formos honestos e nos distanciarmos dos nossos gostos pessoais em favor de critérios objectivos e diria, algo pomposamente, do interesse nacional.
Mas também dá para perceber duas coisas. A primeira é que há mais boa vontade do que talento. Um cada vez maior número de pessoas quer trabalhar em cinema. O que não quer dizer que saiba escrever um argumento, realizar ou produzir um filme. Ou, na maior parte dos casos, que tenha tido sequer uma formação séria e competente nessa área. Mas sobre o ensino artístico haveria mais a dizer, nomeadamente sobre QUEM anda a ensinar o QUÊ e COMO....
A segunda, é que a coisa é bastante matemática. Cada membro do júri aprecia um projecto, segundo critérios claros e atribui uma votação de acordo com esses critérios. O resultado final, em geral, surpreende toda a gente. Mas esse é o problema da democracia: o mínimo denominador comum.
Se juntarmos a isto, a chusma de pessoas que se vão sentir injustiçadas, ou simplesmente feridas nos inchados egos, ficamos próximos do trabalho missionário-suicida.
Ao contrário do que parece. Contra mim falo.

25 de outubro de 2006

RIO DE QUÊ?

Subitamente descubro o porquê de alguma autocensura que me tolheu em certos escritos. Fui contagiado pela falta de humor nacional. Não podemos rir de nós mesmos. Tudo o que eu disser será tomado como um ataque a isto ou aquilo.
Penso no "Rio da Glória", que brinca com a literatura light, com as diversas igrejas, com a crítica literária, com a visão que muitos brasileiros têm do país colonizador distante, e com vário outros assuntos intocáveis e sorrio.
Eta chuva de pedras que aí vem! :)
Pergunto-me que Grande Autor vou ler hoje, para discutir mais tarde com os meus amigos, enquanto a Primavera não chega... AUFF!!!
CRIAR

Não é preciso ser génio, basta ter um dia em branco.

22 de outubro de 2006

PAX IN DOMINICUS

É domingo e chove.
Na caixa de correio chega-me o que parece ser a versão legítima da "Nota Pastoral do Conselho Permanente Conferência Episcopal Portuguesa sobreo referendo ao aborto".
Aparentemente o novo chefe dos bispos católicos, no seu ar bonacheirão, democrata e familiar até, achou por bem esclarecer as coisas. Que não haja confusões: a coisa é para ficar como está. As mulheres devem continuar a malhar com os ossos na cadeia se tiverem a triste ideia de se enfiarem num vão de escada para serem raspadas e sangradas. O que é bem feito, para não serem todas umas putas, ingratas ainda por cima, que não só tiveram a ousadia de terem o que eles, bispos, não podem ter, sexo, como ainda não querem ficar com todos os filhos que dali saírem. O inferno depois de mortas não será suficiente. É preciso ameaçá-las com o inferno em vida.
Resumindo, o texto diz o seguinte:
"Nós, Bispos Católicos, sentimos perplexidade acerca desta situação. Antes de mais porque acreditamos, como o fez a Igreja desde os primeiros séculos,que a vida humana, com toda a sua dignidade, existe desde o primeiro momento da concepção." Daqui, a reter a frase "desde os primeiros séculos".
"..Para os fiéis católicos o aborto provocado é um pecado grave porque éuma violação do 5º Mandamento da Lei de Deus, ?não matarás?, e é-o mesmoquando legalmente permitido"
"Não podemos, pois, deixar de dizer aos fiéis católicos que devem votar "não" e ajudar a esclarecer outras pessoas sobre a dignidade da vidahumana, desde o seu primeiro momento." Daqui basta fixar "não" e "esclarecer".
"Pensamos particularmente nos jovens, muitos dos quais votam pela primeira vez e para quem a vida é uma paixão e tem de ser uma descoberta." Sobre o empenho dos padres em participar da descoberta da paixão dos jovens, já ouvimos falar o suficiente.
"O aborto não é um direito da mulher. Ninguém tem direito de decidir se um ser humano vive ou não vive, mesmo que seja a mãe que o acolheu no seu ventre. A mulher tem o direito de decidir se concebe ou não." É bonita e romântica esta ideia de acolher no seu ventre. Calculo que no recato das sua cela, quem escreve estas coisas imagine que o homem estenda a mão graciosamente e entregue uma gota de precioso líquido que a mulher deposita sobre o ventre e que no mesmo instante se transforma numa linda criança rosada.
Nem por um momento referem o que fazer com os julgamentos das mulheres ou com o facto de defender o sim neste referendo não ser uma aprovação do acto mas apenas o libertar das consciências de quem se vê em tribunal por ter feito algo que a destruiu um pouco.
Do meu ponto de vista toda a celeuma levantada por estas instituições deriva de duas questões: sexo e mulheres. O sexo se não é para eles não deve ser para ninguém. E as mulheres, já que existem, devem ficar-se no papel de mães. De parideiras acolhedoras.
Tudo isto estaria muito bem se não houvesse um movimento decidido e que irá votar em massa no dia do referendo,pelo Não. Enquanto os bananas do Sim, hão-de estar enfiados em centros comerciais ou em casa a discutir Proust, para depois se lamentarem de que "não percebem como aconteceu".
É domingo e chove no meu país provinciano.

19 de outubro de 2006

BED TIME READING

Há já alguns anos que me dedico a ler a proposta de orçamento de estado, pela internet. AQUI Serve isto para ter uma noção do rumo que o país vai tomar e para distinguir o trigo do joio. Assim, quando aparecem tipos muito sérios na comunicação social a dizer que agora é só maravilhas, ou o contrário, consigo focar-me nas razões que movem a criatura em vez de no seu truque de prestidigitação.
Este ano, contudo, o meu interesse estava na Cultura. Tive que aguentar até à página 239 de um relatório de 261. Já se vê a importância que este governo lhe atribui. O orçamento que representa 0,4% (zero vírgula quatro por cento) do orçamento geral, diminuiu 7%. Em média, os ministérios viram as suas verbas reduzidas em 5%.
Claro que isto se deve, do meu ponto de vista a 3 factores. Primeiro, não é um sector prioritário num orçamento restrictivo, ou obrigatório (como o da Defesa, por exemplo, que consome dezenas de milhar de milhões de euros), do ponto de vista de um engenheiro. Segundo, o desempenho deste ministério no ano transacto pede, claramente, um cartão vermelho. Terceiro, basta ler as propostas da ministra e do seu secretário de estado para perceber a ausência de visão e ideias.
Logo, do ponto de vista socrático, para quem é, bacalhau basta.

18 de outubro de 2006

PEDIDO DE DESCULPAS

Ao visitante de camarate que que chegou aqui, através da frase no google: "anucios de mulheres em loures fodas". Desculpas por o "prazer_inculto" de que aqui se fala não ser bem esse. E desculpa em nome do sistema de ensino português por ter falhado com ele.

A MULTA

Hoje, quando cheguei ao local onde ontem, debaixo de chuva, depois de HORAS a procurar lugar parei o carro, tinha uma multa. Eram 10h da manhã e o guarda Abílio tinha passado às 9.13h. E lá escreveu, com a sua letrinha pré-9ºano "60 euros". A coisa chateou-me, sobretudo por estar a contar com este acordo tácito que existe nas zonas superpovoadas de Lisboa de não se multar nas primeiras horas da manhã, a não ser que o carro esteja a prejudicar alguém. O que não era, de todo, o caso. Enfim, a verdade é que a floresta de carros onde o meu desgraçado de quatro rodas se encaixava se tinha sumido antes do guarda aparecer. Azar o meu.
Mas fiquei lixado.
Da mesma forma que ficam lixados, os portugueses a quem se estão a tirar regalias. Não interessa se a situação é incomportável para o país, o facto é que lhes estão a mexer no bolso ou na segurança com que contavam. Isto é muito compreensível. O que não impede que o guarda Abílio, talvez em excesso de zelo, estivesse a fazer o que tinha de fazer.



16 de outubro de 2006

DAVID E GORDÕES

Deveríamos ter tomado como um sinal, o facto do primeiro gesto simbólico do actual governo ter sido o de retirar poder ao polvo farmacêutico. Desde aí, já se meteu com os autarcas, com o Alberto João, com todos os sindicatos, com os biliões de funcionários públicos, para citar apenas alguns dos elementos que gostariam que ficássemos quietinhos enquanto o barco ia ao fundo.
"Kamikaze", seria um bom nome para esta missão.

ps: enquanto escrevo isto, na RTP1, os autarcas batem no peito e invocam o testemunho da virgem sobre a sua honestidade. É divertidíssimo. Vê-los torcerem-se à medida que os fontanários, em vésperas de eleições, se afastam, quero dizer.

NOVO EXCERTO

A pedido, aqui fica um novo excerto do RIO DA GLÓRIA. Trata-se de um momento de uma história que Mário, uma das personagens principais, ouve contar. E é em virtude do relato das desventuras de Zeca Fumaça, que aqui se esboçam, que ele decide mudar o rumo do seu percurso.

"Viu-lhe primeiro o rabo temível, oscilando de um lado
para o outro, sinal de ferocidade. Depois o corpo malhado. E,
finalmente, a grande boca sangrenta dentro do peito aberto de
Jandira. A onça-pintada comia os órgãos que ainda há pouco
se ocultavam sobre os seios fartos da mulher. A onça alimentava-
se de tudo o que sustinha Zeca Fumaça, como se jantasse
na mesa de um padre em deboche. A dor bateu em Zeca como
uma montanha de pedras que lhe desabasse sobre o corpo e a
cabeça. Da sua boca saiu o grito "Jandira!", e precipitou-se,
a faca em punho, na direcção do animal. Era preciso soltar a
mulher, quem sabe ressuscitá-la. A onça não estava disposta
a ceder o seu bocado. Recebeu Zeca com as garras abertas e
as patas na frente do corpo. Mas ele nem sentiu as feridas,
ocupado com a visão da mulher pedindo socorro, morta.
Cravou a faca no bicho, uma, duas, mil vezes, até que um véu
opaco desceu sobre os olhos do animal e um de tule negro
sobre os seus. Quando acordou, tinha uma onça no peito e
tudo o mais desaparecera da sua vida...."
O PORTUGA (que somos nós)

Sabemos tudo, na nossa imensa ignorância. Quando estamos em casa, claro, que quando se vive fora ou se sai regularmente percebe-se melhor quem somos.


O Portuga intelectual:

Vai ao programa da manhã da tv pública, já ouviu falar de Pessoa e concorda até que foi um grande locutor, embora goste mais do Jorge Gabriel. O seu sonho é ser suficientemente rico para poder dizer barbaridades de manhã à noite e ter gente a abanar a cabeça que sim.

O Portuga Desconfiado



A espécie mais comum. "Sim, sim, estás para aí a falar, quero ver quando é me enrabas. Deves de estar a ganhar pouco, deves... pra tares aí com essa conversa toda..."
Engole tudo o que lhe dizem, desde que não o contrariem nos protestos. Já leu "O Código Da Vinci" e assistiu a um concerto da Marisa Monte.

15 de outubro de 2006

O QUE É UM BLOGUE?

...perguntava ontem um amigo meu, pouco dado às novas tecnologias (é mais surf, desenho e tudo o que meta o contacto entre as mãos e a criação).
Eu lá dei uma resposta sofrível e vagamente clara.
Mas quando dou uma vista de olhos ao sitemeter e vejo não só a origem mas o que procuram no prazer_inculto, os milhares de pessoas que todas as semanas fazem o favor de aqui entrar (outras encalham, por acaso, e apressam-se a sair, claro), vindas de todo o mundo, percebo que um blogue é mais do que o sítio onde um tipo diz o que lhe apetece sobre o que lhe apetece. É sobretudo um lugar de partilha. Uns buscam informação, outros opinião, alguns têm apenas curiosidade em saber se existe uma coincidência entre quem escreve livros e quem exerce a cidadania. Alguns, não fazem sequer ideia do que se está a dizer. Nem dominam a língua. Mas ainda assim, picam fotografias ou desenhos que foram tirados em Tróia, ou nos Açores, ou da janela de casa e levam-nos com eles, para os seus próprios blogues. Para ilustrar novas ideias noutras línguas.
E isso, só pode ter o nome de partilha.
AS BOAS NOTÍCIAS TAMBÉM TÊM UM LADO ENJOATIVO

Houve quem considerasse exagerada a declaração do ministro: "Acabou a crise".
Eu, incluído. Porque ainda nessa manhã tinha andado na rua, no metro e nos autocarros, e escutado as pessoas. Grupos de 3 e 4 pessoas acabadas de serem despedidas, reformados a contar (literalmente) os centavos para o pão, outras ao telemóvel a gritarem enervadas com quem não lhes pagava...
Mas hoje, ao chegar ao centro comercial Vasco da Gama, percebi que estava enganado. Havia milhares de pessoas lá dentro. De uma loja para a outra, como se o Natal tivesse chegado mais cedo. E, sim, tinham sacos de compras nas mãos.
No cinema onde entrei para assistir a uma comédia a fila vinha até à porta. Famílias inteiras gastavam 5.20 euros por pessoa, acrescidos de mais 3 ou não sei quanto, por baldes gigantes de pipocas e de coca-cola. Eram 18h de domingo. Quando saí do filme, duas horas depois, ainda não havia lugar para pousar o tabuleiro da fast food...
De maneira que, senhor ministro, apesar de cá em casa não ser assim, deve ter razão. A crise é capaz de ter acabado. Pelo menos até ao final da semana.

13 de outubro de 2006

TÍTULO

Pronto... Agora é definitivo. Vem aí o RIO DA GLÓRIA. 396 páginas que começam assim:

"São seis horas e ainda tudo dorme nos campos. Cobertos
de geada, mesmo se ainda é Outubro. O Volvo atravessa a estrada
de paralelos, veloz. Dos dois lados do caminho, as árvores
começam a secar; salgueiros e carrasqueiros misturados
numa cor mortiça. O motor é potente e acorda as lebres que se
mexem sobressaltadas nos seus abrigos de espinheiro. Lá dentro,
o homem olha para trás para ver se a menina está adormecida.
Não está: mira tudo com os olhos azuis muito abertos.
As nuvens coladas aos olhos. Os galhos das árvores a arranharem
na passagem. Treme no seu casaquinho de malha. A sua
pequena mão repousa sobre o colo da mulher nova e bonita.
Tão bonita. Tão nova. O penteado ao alto, os lábios apertados
no batom carmesim. Não responde aos olhares que a menina
lhe deita, olha em frente, deixando que a planície passe, fria,
por ela."




NOBEL DA PAZ
O Prémio Nobel da Paz foi atribuído a Muhammad Yunus, do Bangladesh, e ao seu banco Grameen, "pelo esforços na criação de desenvolvimento económico e social através de projectos de microcrédito".
Parece-me, um dos prémios mais justos dos últimos anos.
Esta ideia de confiar nos pobres é cada vez mais peregrina no mundo. Nos vários sentidos da palavra. Agora confia-se em quem não precisa. Vai-se ao banco pedir um empréstimo e eles querem saber se temos muito dinheiro, para confiarem. Ora se tivéssemos muito dinheiro não precisaríamos de lá ir. Pensamos nós. Errado. O dinheiro dos bancos não tem uma função social. Serve apenas de instrumento de troca e enriquecimento. Para permitir aos seus accionistas e administradores ir de férias para a Caledónia, em jacto privado (alguns com o cilício na bagagem, por causa do detector de metais), enquanto o resto, que somos nós, nem para ir a Tróia conseguimos poupar.
Yunus não pensou assim. Acreditou na honestidade dos que só podem ter a honestidade como bem. Do que eu conheço do mundo dos que têm muito pouco, sei que a maioria é estupidamente honesta. E que só quer uma oportunidade de poupar aos filhos o sofrimento que lhe foi infligido.
Se isto não merece um prémio nobel, não sei o que o mereça.

12 de outubro de 2006

Orhan Pamuk

Mais um nome para ir à procura. Talvez, até, ler.... Será que isto nunca mais acaba? Raios partam os escritores!

11 de outubro de 2006

O PERPETUAR DO CACIQUISMO

Marques Mendes...
O homem irrita-me. E não é por ser pequenino que eu também não sou grande. Até simpatizava com o nick ("shorty") que a miudagem de Carcavelos ou lá onde é que era lhe dava quando estendia o corpito na prancha de bodyboard. Mas desde que conseguiu, em tempo de vacas
magras, chegar ao poder partidário, anda insuportável.
Esta de aproveitar a mais do que ansiada tentativa de um primeiro-ministro de dar alguma ordem ao despesismo local e regional foi patética e demagógica. E demonstrativa que ele não chegou à direcção do seu partido com paninhos quentes, mas por um aproveitamento de "coninhas", que ele há-de ser, apontando o dedo ao menino mil vezes mais corajoso do que ele: "Sra professora, o Sócrates estava a segurar os braços dos grandalhões. E eles coitadinhos só queriam continuar a comer o almoço dos outros meninos!"
Oh, shorty, vai lá brincar para o recreio, pá.



Antonio-Mancini-The-Poor-Schoolboy-

ARAGUAIA

Ao tentar confirmar na net a existência de um pássaro ("anã" de acordo com os locals) e que não aparece em lado nenhum, voltei a deparar-me com uma fauna maravilhosa e uma região tranquila a maior parte do ano (excepto em Julho, altura dos acampamentos nas margens do rio).

10 de outubro de 2006

NOVO LIVRO DE LUIS RUFFATO

Acaba de ser lançado no Brasil, pela Record, o novo livro do escritor, que tem publicado entre nós "Eles eram muitos cavalos".
Este terceiro volume da trilogia INFERNO PROVISÓRIO recebeu o título "Vista Parcial da Noite".

9 de outubro de 2006

CINEMA PORTUGUÊS 2

Hoje fui subitamente lembrado, espantosamente recordado, de que a Leonor Silveira é a actriz mais bonita do cinema português. Daquela beleza serena que tem o som do mar entre os penhascos.
CINEMA PORTUGUÊS 1
"Transe" o filme de Teresa Villaverde é de novo um trabalho interessante da realizadora. Depois do auspicioso "OS Mutantes", voltamos a ver a sua actriz-fétiche (com um bocado de exagero na afirmação) a abrir, como uma sequela, este novo filme. E vai, de facto, bem, num papel difícil.
As únicas fragilidades do filme derivam de erros de argumento. Sobretudo de estrutura (que calculo é capaz de ter existido, em tempos...). Embora este guião esteja já melhorzinho do que n'OS MUTANTES e, ao que dizem, a quilómetros do penoso ÁGUA E SAL. Mas Teresa Villaverde, tal como a esmagadora maioria dos realizadores portugueses, não só não percebe um boi de como se escreve um argumento, como nem sequer tem consciência disso. O resultado é um meio de filme um bocadinho penoso e uma sequência com um maluco libidinoso, que não estando mal, foi ali metida à cacetada.
Mas ainda assim, um filme a ver.

5 de outubro de 2006

CHINA

Quando entramos numa loja de artigos baratos, que nascem como cogumelos nas nossas ruas, esquecemo-nos sempre que estamos a financiar uma das piores ditaduras do mundo. Um lugar onde a condenação à morte é quase certa, para os crimes que a prevêm (tráfico de droga, etc...). Mas com a aproximação dos olhares do mundo nos jogos olímpicos e a imagem de país de grandes negócios, as autoridades chinesas resolveram mostrar-se compadecidas. Assim, vão acabar com os tiros na cabeça à beira de valas da praxe. Agora, modernizaram-se com autocarros equipados com camas de injecção letal. Uma prova do bom coração chinês.
Mais informação aqui e aqui.